domingo, 25 de maio de 2008

Atleta catarinense participa de treinos para as paraolímpiadas da China

Paulo Roberto Homem atual na equipe brasileira de goalball


Paulo Roberto Homem é o primeiro atleta com deficiência visual de Santa Catarina, a ser convocado para treinar junto à seleção brasileira masculina de Goalball.
Associado da Associação Catarinense Para Integração do Cego - ACIC, Paulo começou a participar da modalidade através do projeto Sábado no Campos, desenvolvido pelocurso de educação física da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC em parceria com a ACIC, entidade representada pelo atleta em diversos torneios como, por exemplo, a Copa Brasil de Goalball onde Paulo apresentou suas habilidades e agora está treinando com a seleção em fase preparatória para os jogos paraolímpicos de Pequim.
Acompanhe abaixo trechos da entrevista do atleta para o blog Pátria Inclusiva e saiba um pouco mais sobre essa modalidade.
Josué: Você está exatamente treinando aonde?
Paulo: Estou nesse momento treinando aqui na Paraíba, descansando no hotel e depois vamos voltar para o ginásio.
Josué: Perfeito. E quantos atletas estão treinando nessa fase?
Paulo: Estamos em oito atletas, e desse grupo ficarão somente seis jogadores que irão compor a seleção. Os selecionados serão inscritos para os jogos paraolímpicosde Pequim na China.
Josué: Quantos atletas foram convocados desde o início da primeira etapa?
Paulo: Inicialmente foram convocados dez atletas.
Josué: Podemos considerar que seria a última fase?
Paulo: Em termos de corte, sim.
Josué: Como está sendo seu rendimento?
Paulo: Satisfatório. Mas o nível é muito alto. Melhorei muito desde a última etapa dos treinos. A responsabilidade da comissão técnica é muito grande em decidiros seis atletas, pois todos têm boas chances de ir para China.
Josué: como estão sendo realizados os treinamentos em termos de preparação?
Paulo: Estamos treinando três horas pela manhã e três horas à tarde. Começamos no dia 19 de maio e vamos treinar até o dia 29.
Josué: Quantos profissionais estão envolvidos no acompanhamento dos treinos?
Paulo: Ao total são sinco pessoas incluindo técnico, massagista e ect.
Josué: Você é o único representante da região sul?
Paulo: De Santa Catarina sim. Mas também a representante do Paraná.
Josué: Agradeço por sua disponibilidade em atender-me. Estamos todos torcendo por você mano. Como o Brasil, ainda não possui medalhas nessa categoria nos jogos paraolímpicosvocê poderá entrar para a história.
Paulo: Vamos ver se vai dar tudo certo para a gente representar floripa na China.
Goalball
Esta modalidade foi criada especialmente para os deficientes visuais, ao contrário de outras, que foram adaptadas. Em 1946 o austríaco Hanz Lorenzene o alemão Sepp Reindle desenvolveram uma atividade para ajudar na reabilitação de soldados veteranos que haviam adquirido a deficiência visual durante a SegundaGuerra Mundial. Era o goalball.
Nos Jogos Paraolímpicos de Toronto, em 1976, o esporte foi disputado em caráter de exibição e a partir dos Jogos de Arnhem 1980, na Holanda, entrou parao programa da competição. As mulheres fizeram sua primeira participação nos Jogos de Nova York 1984. Em 1978, na Áustria, foi realizado o primeiro Campeonato Mundialda modalidade. Atualmente é praticado nos cinco continentes do mundo.
Como é jogado
É um esporte coletivo, onde participam duas equipes de três jogadores, com no máximo, mais três atletas reservas. Competem, na mesma classe, atletas classificadoscomo B1, B2 e B3, segundo as normas de classificação desportiva da International Blind Sports Federation (IBSA), separados nas categorias masculina e feminina.
O desenvolvimento do jogo é baseado no uso da percepção auditiva para a detecção da trajetória da bola, que tem guizos, e requer uma boa capacidade deorientação espacial do jogador para saber onde está localizada. Por isso o silêncio absoluto é muito importante para o desenvolvimento da partida.
O principal objetivo é que cada equipe jogue a bola rasteira para o campo adversário e marque o maior número de gols em dois tempos de 10 minutos jogados.Os três jogadores atacam e defendem.
O local de competição deve ser um ginásio com uma quadra retangular, dividida em duas metades por uma linha central, com um gol (de 9 metros de largurae 1,3 de altura) em cada extremo. Não é permitido o uso de próteses, óculos ou mesmo lentes de contato. Todo jogador deve usar vendas de pano totalmente opacas (ouóculos opacos de esqui), de modo que aquele que possui visão residual não possa obter vantagem sobre um companheiro seu totalmente cego.
No Brasil
O esporte chegou ao Brasil através do professor Steven Dubner no Clube de Apoio ao Deficiente Visual (CADEVI), de São Paulo, em 1985.
Foi implantado como modalidade oficial da ABDC pelo professor Mario Sergio Fontes, que levou o goalball inicialmente para a Associação dos DeficientesVisuais do Paraná (ADEVIPAR), em 1986 e, no ano seguinte realizou o primeiro Campeonato Brasileiro, na cidade de Uberlândia (MG).
Hoje, 46 equipes masculinas e 43 femininas, filiadas à Confederação Brasileira de Desportos para Cegos - CBDC praticam essa modalidade.
Fonte:

sábado, 24 de maio de 2008

DESAFIO BRASILEIRO SOBRE O GELO

O treinamento de Marcos Henrique Lima iniciou no dia 20 de janeiro na cidade de Jeseník, nas montanhas da República Tcheca. Organizada pelos professores docurso de educação física adaptada da Universidade Palackého de Olomouc. Marcos passou a ser o primeiro brasileiro cego a ter participação nas oficinas de esqui direcionadasa prática dos esportes de inverno. O idealizador deste projeto foi o professor de educação física Gabriel Mayr, especialista em esporte para cegos que acompanhouo treinamento para se tornar técnico e guia de Marcos. O responsável pelas etapas de formação dos dois brasileiros foi o técnico da seleção Tcheca de esqui para deficientes visuais Zbynek Janecka. Todo o registro esteve aos cuidados da jornalista Thaís Castro, diretora cultural da URECE, entidade apoiadora do projeto e da qual Marcos é vice-presidente. De acordo com a entrevista de Marcos a divulgação promovida pelos veículos de comunicação foram um dos objetivos alcançados pelo projeto ganhando até matérias de âmbito internacional destacado no vídeo abaixo pela jornalista Maura Ponce de Leonno postado no jogo extra.
Outro ponto destacado na entrevista de Marcos Lima na postagem anterior estava relacionado com o tempo necessário de descanso para a recuperação do esquiador.
Relata Marcos em seu blog:
Terceiro Dia, a Crise.
No terceiro dia de aprendizado, o esquiador iniciante (principalmente o esquiador cego), normalmente apresenta uma queda acentuada no seu rendimento. O que acontece é que o cérebro recebeu tantas novas informações nos dois dias anteriores, que este necessita de um tempo para processá-las para só depois poder armazená-las corretamente. Não, fiquem tranqüilos que isso não é uma desculpa para justificar um mau desempenho. São palavras do meu professor, que, felizmente, foram ditas antes do dia começar. Assim eu não fiquei me sentindo tão mal quando não consegui realizar com a mesma desenvoltura movimentos que eu vinha fazendo bem até ontem.
Toda a perseverança de Marcos Lima foi com certeza o principal ingrediente para o sucesso de sua empreitada, que apesar de ainda estar longe da realidade dos esportes adaptados de atletas brasileiros é o referencial para a sociedade de modo geral indicando que a pessoa com deficiência pode superar e suportar inúmeros desafios.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Entrevista com Marcos LimaPrimeiro Cego Brasileiro a

Marcos Lima


Acompanhe minha entrevista com o primeiro cego do Brasil a esquiar na República Tcheca.


Josué: Você acredita que a cegueira ajudou a vencer o medo, pelo fato de não estar enxergando?

Marcos: Ajudou. Claro que atrapalha porque a gente tem medo do desconhecido, não só a gente cego, mas a gente ser humano. O ponto está em saber se seria maior o medo do desconhecido ou o medo da altura. E eu sinceramente, acho que o medo da altura seria maior, portanto eu acredito que tenha levado alguma vantagem, risos. Mas me ajudou muito o fato de sempre ter praticado esporte, de ser jogador de futebol, porque eu já tinha um conhecimento corporal que me ajudou muito. Não só porque eu sabia cair e por isso não tinha medo quando caía, mas também porque no futebol eu estou acostumado a correr contra o desconhecido, de não saber exatamente o que está à minha frente e ainda assim correr. E isso eu fazia no esqui. Claro, que o futebol me ajudou muito. Teve um dia em que o meu treinador foi me ensinar a cair, e ele ficou espantado porque ele descobriu que eu sabia cair. E eu só sabia cair porque se eu não souber cair no futebol, eu não posso jogar.

Josué: você já havia passado por alguma experiência semelhante antes?

Marcos: Nunca tinha tido nenhuma experiência com esqui não. Eu. Conheci o equipamento de esqui numa loja quando cheguei na Bélgica.

Josué: A prática do esqui em relação ao futebol, apresenta situações diferentes em termos de velocidade ou para você é a mesma coisa?

Marcos: Mas eu não comecei logo a plena velocidade, eu comecei com uma pessoa me acompanhando a cada movimento. A velocidade e as curvas, que é o que dá mais medo, vem aos poucos. E, quando elas vem já estava acostumado. Não saí esquiando profissionalmente, precisaria de mais algum tempo para isso, mas minha evolução foi muito elogiada. E eu tenho certeza que foi pelos conhecimentos corporais que eu já levava. Se fosse um cego que nunca praticou esporte, certamente ele teria tido muito mais dificuldades.

Josué: Fale um pouco sobre o projeto, e o exercício do bambu?

Marcos: Fundei com alguns amigos. O projeto foi meu e do Gabriel Mayur, que é o gerente de projetos da Urece e que está cursando mestrado em desporto adaptado na República Tcheca. Abriu um curso de esqui para deficientes na universidade dele e ele me chamou para fazer parte. E daí corremos atrás de parceiros para que a viagem fosse possível. Conseguimos levar uma jornalista para registrar a experiência, e isso proporcionou a divulgação do evento, já que as TVs só aceitavam fazer a matéria se tivessem imagens feitas de eu esquiando. O exercício do bambu, você viu isso, hehe. Foi muito engraçado, porque eu não sabia de onde vinha a pancada para me derrubar. Me ajudou a ter uma reação melhor, um reflexo que sem dúvida foi importante para mim nas montanhas.

Josué: Qual era o tempo em média de cada atuação sua? havia um tempo pré-determinado ou era de acordo com o q você poderia suportar em termos de condições climáticas e preparo físico?

Marcos: eu não estava competindo. Estava la'treinando e aprendendo, não necessariamente nessa mesma ordem. Por isso, o tempo quem determinava eram meus treinadores.Em geral, cada sessão tinha uma ou duas horas pela manhã e o mesmo tempo à tarde. Mas as vezes o treinador exigia que eu ficasse um dia de repouso ou no mínimo um período, porque ele acredita que os deficientes visuais têm certa dificuldadede assimilar movimentos muito novos por longos períodos sem descanso. No terceiro dia, quando eu fui praticar quando o certo seria descansar. Foi o dia em que eu mais errei, mas errar e cair também faz parte. Meu treinador disse que eu precisaria daquele descanso para que o meu cérebro pudesse processar todos os movimentos. Mas como a temporada era curta, eu tinha que aproveitar todos os momentos.

Josué: E qual seria o seu objetivo a ser alcançado? Dentro desse projeto? Competir?

Marcos: O meu treinamento fez parte do projeto de eu me tornar o primeiro cego brasileiro a esquiar, porque queríamos, com isso, não só chamar a atenção para aurece 9a associação que conseguiu esse projeto) como também para os deficientes visuais em geral. Esqui é um esporte radical e então se um cego pode fazer,ele pode fazer muito mais coisas do que as pessoas em geral imagina. Isso foi uma forma de tentar quebrar um pouco o preconceito que a gente vive diariamente. Mas difícil do que esquiar , é andar pelas cidades Claro que se tiver patrocínio e condições, eu quero continuar, tentar chegar a algum patamar internacional,mas o primeiro passo tinha que ser dado e felizmente a gente conseguiu ser pioneiro nisso Para chegar a competir, eu tenho que treinar muito mais. o tempo estipulado de aprendizagem para um deficiente visual é de três invernos. Eu, em um inverno,consegui progredir dois invernos. Ou seja, para eu começar a pensar em competir, ainda teria que passar por mais um período de aprendizagem e então me inscrever e começar a disputar. Daí para chegar a uma Paraolimpíada, tem um longo caminho pela frente. Mas a gente sempre pensa alto, eu quero o máximo,lógico, mas estou satisfeito com o que conseguimos até agora.Ao retornar para o Brasil, consegui uma divulgação na mídia que foi boa, mas poderia ter sido muito melhor. Mas não consegui nenhum patrocínio não, infelizmente.

Josué: Quais foram as análises das pessoas q te acompanharam, como por exemplo do seu técnico?

Marcos: que eu estou entre os cinco alunos dele de maior e mais rápida aprendizagem. E ele ensina isso há trinta anos. Eu fiquei satisfeito, não esperava que eu tivesse tanta facilidade. Sinceramente, há um caminho enorme ainda a percorrer, mas eu sai daqui sob os piores auspícios: "vai cair! Vai se quebrar todo!" e felizmente nada disso aconteceu.

Josué: Qual foi a receptividade das pessoas ao voltar ao Brasil, como amigos família e colegas de trabalho?

Marcos: Foi ótima cara. Teve aquele componente pessoal também, porque eu fiquei muito tempo fora, mas eu sei que ficaram orgulhosos de mim porque muita gente previu que eu fosse me acidentar.

Josué: Lá já é comum então para as pessoas verem um cego esquiando de forma competitiva?

Marcos: Sim, lá criancinhas de quatro ou cinco anos já esquiam direitinho.

Josué: E suas expectativas, quais são daqui para frente? você realmente vai se dedicar ou vai tentar conciliar as duas coisas trabalho e ser um atleta paraolímpico, o que você acha que vai rolar?

Cara, estou ainda distante de ser um atleta paraolímpico. Queria que pintasse algum projeto, algum patrocínio, quem sabe para o meio do ano no inverno sul-americano, mas por enquanto isso é bem distante, não tem nada acontecendo nesse sentido. Eu quero ter outra chance e tentar chegar a algum lugar. quem sabe ser o primeiro atleta brasileiro numa Paraolimpíada?

Josué: e o q você pôde identificar nas pessoas cegas ao descobrir essa modalidade já q no Brasil não é praticado?

Marcos: Cara, acho que tá muito longe das pessoas aqui, porque esportes de inverno não são difundidos para ninguém, deficientes ou não.

Josué: Se para conseguir apoio a modalidades como o futebol para cegos já é um desafio imagina para esquiar, ou você não vê assim?

Marcos: Vejo assim. Os custos são muito altos, porque é uma atividade praticada fora do Brasil, E eu trabalho com isso todos os dias, buscando patrocínio para modalidades praticadas aqui no quintal e nada acontece. Por isso que eu não tenho tantas esperanças de que o projeto do esqui possa ir à frente, infelizmente.

Josué: Marcos fico muito agradecido por sua gentileza pois também estou aprendendo muito com você. Desculpa por algo.

Marcos: Até três meses atrás, era um assunto totalmente desconhecido para mim também, EU nunca tinha visto neve.

Cego Brasileiro é Pioneiro na Inclusão de Esportes de Inverno

Marcos Lima


Marcos Lima, formado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), participa de uma experiência única como esquiador na República Tcheca.


Esquiando no escuro

Confira abaixo um vídeo exclusivo para o blog Pátria Inclusiva e aguarde uma reportagem completa com o atleta.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

HELEN KELLER, UM MITO DA INCLUSÃO SOCIAL NO MUNDO

Helen Keller (1880-1968) foi uma jovem norte-americana que aos 19 meses, depois de grave doença, ficou cega e surda e quase muda em consequênciada surdez. Nestas condições, sem poder ver nem ouvir, passou a depender total e completamente do sentido do tacto para comunicar com os outros seres humanos.

Durante os anos que se seguiram conheceu apenas as reacções próprias dos instintos naturais, pois os acessos de cólera levavam-na a obter dfacilmente tudoo que era necessário à sua existência material.A vida de Helena Keller mudou completamente por volta dos 7 anos. Miguel Anagnos, Director da Perkins Institution, de Boston, recomendou a ex-educanda AnaSullivan para tentar a sua educação.


Jovem de 20 anos, filha de imigrantes irlandeses, Ana Sullivan estivera cega num período da sua vida em consequênciade tracoma, mas duas operações haviam-lhe restituído praticamente a visão. Helena Keller, embora dotada de vigorosa saúde física e de intelectualidadeainda relativamente intacta, teria permanecido no mundo animal se, nos limites do tempo útil para a sua recuperação, não houvesse sido entregue à extraordináriaprofessora que lhe forneceu o elemento fundamental para o desenvolvimento da inteligência - a linguagem.


Assim, e vencendo todas as dificuldades, veioa ser uma pessoa distinta e muito instruída, que se formou numa Universidade e obteve brilhantes notas nos exames de idiomas.A vida mental de Helena Keller foi muito activa, repartindo-se entre a meditação, a leitura, a conversa com os seus íntimos, o cuidado de uma numerosa correspondênciae os seus trabalhos literários. O seu estilo foi adquirindo categoria e evoluiu com o tempo.


A princípio escrevia sobre tudo: clima, história, edificações e geografia das terras que ia estudando; reais e imaginários companheiros da sua idade; paísesde fadas...pelo seu direito de viver, de se instruir e ter uma profissão. Lia muito sobre os problemas da cegueira (a unificação do Sistema Braille, os métodos dede poder discutir e escrever competentemente a respeito deles.A AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM. - Helena Keller era cega, surda e muda desde a mais baixa infância.


A maneira como esta tripla deficiência foi compensada atraiuMuito resumidamente, referiremos que foi suficiente traçar-lhe certos sinais na mão, enquanto ela tocava os objectos, para que em vinte dias compreendesseque toda a ideia está representada por um signo especial, graças ao qual os homens podem comunicar entre si. Um mês e meio mais tarde conhecia pelo tactoos caracteres do alfabeto braille; passado mais um mês conseguia escrever uma carta a um dos seus primos. Ao cabo de três anos tinha adquirido uma quantidadede ideias e de palavras suficientes para conversar, ler com inteligência e escrever em bom inglês.


Houve então a ideia de a fazer tocar os movimentos da faringe, dos lábios e da língua que acompanham a palavra. Imitando estes movimentos, conseguiu reproduziros sons que se articulavam na sua presença. Um mês depois da primeira aula de articulação, num som cavo e aspirado, pronunciou a célebre frase "já nãosou muda."Ana Sullivan prosseguiu este paciente trabalho com Helena Keller durante toda a vida. Os começos foram difíceis, mas a coragem de ambas levou Helena a poderfalar, isto é, a poder exprimir as ideias pelo som.


Nunca chegou a falar em público de maneira satisfatória, mas, em compensação, logrou especializar-sena leitura de lábios pelas vibrações. Pondo a mão nos lábios do seu interlocutor, conseguia perceber as suas palavras com os dedos, principalmente quandoa voz era clara e sonora. Enfim, não contente com dominar o seu próprio idioma, estudou o francês,o alemão, o latim e o grego.


Escrevia corretamente o francês, que começou a estudar aos 9 anos e a seu pedido; estudou o alemão para conhecer directamenteas grandes obras da literatura germânica; estudou também o latim e o grego, que lhe exigiram para os seus exames universitários.


Helena Keller compreendeu que toda a ideia está representada por um signo especial; e, servindo-se apenas do sentido do tacto, rasgou três caminhos parao mundo das ideias.Fonte: José Antonio Baptista Porto 23 de junho de 2005

TRÊS DIAS PARA VER

Por Helen Keller

O que você olharia se tivesse apenas três dias de visão?Helen Keller, cega e surda desde bebê, Dá a sua resposta neste belo ensaio, Publicado no Reader's Digest (Seleções) há 70 anos.Várias vezes pensei que seria uma benção se todo ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias no principio da vida adulta.


As trevas o fariamapreciar mais a visão e o silencio lhe ensinaria as alegrias do som.De vez em quando texto meus amigos que enxergam para descobrir o que eles vêem. Há pouco tempo perguntei a uma amiga que voltava de um longo passeio pelo bosque o que ela observara. "Nada de especial", foi à resposta.Como é possível, pensei, caminhar durante uma hora pelos bosques e não ver nada digno de nota?


Eu, que não posso ver, apenas pelo tacto encontro centenasde objetos que me interessam. Sinto a delicada simetria de uma folha. Passo as mãos pela casca lisa de uma bétula ou pelo tronco áspero de um pinheiro.Na primavera, toco os galhos das árvores na esperança de encontrar um botão, o primeiro sinal da natureza despertando após o sono do inverno.


Por vezes, quando tenho muita sorte, pouso suavemente a mão numa arvorezinha e sinto o palpitar feliz de um pássaro cantando. Às vezes meu coração anseia por ver tudo isso. Se consigo ter tanto prazer com um simples toque, quanta beleza poderia ser revelada pela visão! E imagineio que mais gostaria de ver se pudesse enxergar, digamos por apenas três dias. Eu dividiria esse período em três partes.


No primeiro dia gostaria de ver as pessoas cuja bondade e companhias fizeram minha vida valer a pena. Não seio que é olhar dentro do coração de um amigo pelas "janelas da alma", os olhos. Só consigo "ver" as linhas de um rosto por meio das pontas dos dedos. Possoperceber o riso, a tristeza e muitas outras emoções. Conheço meus amigos pelo que toco em seus rostos.Como deve ser mais fácil e muito mais satisfatório para você, que pode ver, perceber num instante as qualidades essenciais de outra pessoa ao observar assutilezas de sua expressão, o tremor de um músculo, a agitação das mãos. Mas será que já lhe ocorreu usar a visão para perscrutar a natureza íntima de um amigo?


Será que a maioria de vocês que enxergam não se limita a ver por alto as feições externas de uma fisionomia e se dar por satisfeita?Por exemplo, você seria capaz de descrever com precisão o rosto de cinco bons amigos? Como experiência, perguntei a alguns maridos qual a exata cor dosolhos de suas mulheres e muitos deles confessaram, encabulados, que não sabiam. Ah, tudo que eu veria se tivesse o dom da visão por apenas três dias!


O primeiro dia seria muito ocupado. Eu reuniria todos os meus amigos queridos e olharia seus rostos por muito tempo, imprimindo em minha mente as provasexteriores da beleza que existe dentro deles. Também fixaria os olhos no rosto de um bebê, para poder ter a visão da beleza ansiosa e inocente que precedea consciência individual dos conflitos que a vida apresenta. Gostaria de ver os livros que já foram lidos para mim e que me revelaram os meandros maisprofundos da vida humana.


E gostaria de olhar nos olhos fiéis e confiantes de meus cães, o pequeno scottie terrier e o vigoroso dinamarquês.À tarde daria um longo passeio pela floresta, intoxicando meus olhos com belezas da natureza. E rezaria pela glória de um pôr-do-sol colorido. Creio quenessa noite não conseguiria dormir.No dia seguinte eu me levantaria ao amanhecer para assistir ao empolgante milagre da noite se transformando em dia. Contemplaria assombrado o magníficopanorama de luz com que o Sol desperta a Terra adormecida.


Esse dia eu dedicaria a uma breve visão do mundo, passado e presente. Como gostaria de ver o desfile do progresso do homem, visitaria os museus. Ali meus olhos, veriam a história condensada da Terra -- os animais e as raças dos homens em seu ambiente natural; gigantescas carcaças de dinossauros e mastodontesque vagavam pelo planeta antes da chegada do homem, que, com sua baixa estatura e seu cérebro poderoso, dominaria o reino animal.


Minha parada seguinte seria o Museu de Artes. Conheço bem, pelas minhas mãos, os deuses e as deusas esculpidos da antiga terra do Nilo. Já senti pelo tactoas cópias dos frisos do Paternon e a beleza rítmica do ataque dos guerreiros atenienses. As feições nodosas e barbadas de Homero me são caras, pois tambémele conheceu a cegueira.Assim, nesse meu segundo dia, tentaria sondar a alma do homem por meio de sua arte.


Veria então o que conheci pelo tacto. Mais maravilhoso ainda, todo o magnífico mundo da pintura me seria apresentado. Mas eu poderia ter apenas uma impressão superficial. Dizem os pintores que, para se apreciar a arte, reale profundamente, é preciso educar o olhar. É preciso, pela experiência, avaliar o mérito das linhas, da composição, da forma e da cor. Se eu tivesse avisão, ficaria muito feliz por me entregar a um estudo tão fascinante.À noite de meu segundo dia seria passada no teatro ou no cinema.


Como gostaria de ver a figura fascinante de Hamlet ou o tempestuoso Falstaff no coloridocenário elisabetano! Não posso desfrutar da beleza do movimento rítmico senão numa esfera restricta ao toque de minhas mãos. Só posso imaginar vagamentea graça de uma bailarina, como Pavlova, embora conheça algo do prazer do ritmo, pois muitas vezes sinto o compasso da música vibrando através do piso.Imagino que o movimento cadenciado seja um dos espetáculos mais agradáveis do mundo.


Entendi algo sobre isso, deslizando os dedos pelas linhas de um mármoreesculpido; se essa graça estática pode ser tão encantadora, deve ser mesmo muito mais forte a emoção de ver a graça em movimento.Na manhã seguinte, ávida por conhecer novos deleites, novas revelações de beleza, mais uma vez receberia a aurora. Hoje, o terceiro dia, passarei no mundodo trabalho, nos ambientes dos homens que tratam do negócio da vida.


A cidade é o meu destino. Primeiro, paro numa esquina movimentada, apenas olhando para as pessoas, tentando, por sua aparência, entender algo sobre seu dia-a-dia. Vejo sorrisos efico feliz. Vejo uma séria determinação e me orgulho. Vejo o sofrimento e me compadeço.Caminhando pela 5ª Avenida, em Nova York, deixo meu olhar vagar, sem se fixar em nenhum objeto em especial, vendo apenas um caleidoscópio fervilhando decores.


Tenho certeza de que o colorido dos vestidos das mulheres movendo-se na multidão deve ser uma cena espetacular, da qual eu nunca me cansaria. Mastalvez, se pudesse enxergar, eu seria como a maioria das mulheres - interessadas demais na moda para dar atenção ao esplendor das cores em meio à massa.Da 5ª Avenida dou um giro pela cidade - vou aos bairros pobres, às fábricas, aos parques onde as crianças brincam.


Viajo pelo mundo visitando os bairros estrangeiros. E meus olhos estão sempre bem abertos tanto para as cenas de felicidade quanto para as de tristeza, de modo que eu possa descobrir como aspessoas vivem e trabalham, e compreendê-las melhor.Meu terceiro dia de visão está chegando ao fim. Talvez haja muitas atividades a que devesse dedicar as poucas horas restantes, mas aço que na noite desseúltimo dia vou voltar depressa a um teatro e ver uma peça cômica, para poder apreciar as implicações da comédia no espírito humano.


À meia-noite, uma escuridão permanente outra vez se cerraria sobre mim. Claro, nesses três curtos dias eu não teria visto tudo que queria ver. Só quandoas trevas descessem de novo é que me daria conta do quanto eu deixei de apreciar.Talvez este resumo não se adapte ao programa que você faria se soubesse que estava prestes a perder a visão. Nas sei que, se encarasse esse destino, usariaseus olhos como nunca usara antes.


Tudo quanto visse lhe pareceria novo. Seus olhos tocariam e abraçariam cada objeto que surgisse em seu campo visual.Então, finalmente, você veria de verdade, e um novo mundo de beleza se abriria para você.Eu, que sou cega, posso dar uma sugestão àqueles que vêem: usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. E o mesmo se aplica aos outros sentidos.Ouça a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objeto como se amanhã perdessem o tacto. Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos. Usem ao máximo todos os sentidos;goze de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contacto fornecidos pela natureza.

Mas, de todos os sentidos, estou certa de que a visão deve ser o mais delicioso.

Texto: Seleções Reader's Digest - Junho/2002

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Exemplo de superação marca a história da inclusão social no Brasil

Esse sou eu no setor braile da Biblioteca Pública de Santa Catarina


Patrono da educação dos cegos no Brasil, José Alves de Azevedo é uma das figuras mais importantes dos últimos anos. Escrever sobre este jovem herói é sentir na alma o mais precioso agradecimento por sua existência. Sonhador e corajoso, ele demonstrou a real capacidade das pessoas cegas em pleno século XIX, cruzou o oceano, adquiriu conhecimentos e domínio do sistema Braille e trouxe ao nosso país oportunidades até então desconhecidas para as pessoas sem visão. Sua trajetória de vida foi curta e pouco se sabe a seu respeito, mas os registros encontrados são suficientes para refletirmos sobre a cidadania das pessoas com deficiência em meio a tantos preconceitos.

Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 8 de abril de 1834, filho de Manoel Alves de Azevedo. Apesar de todos os esforços da família no sentido de combater a cegueira do garoto, utilizando-se de todos os recursos oferecidos pela medicina da época, Azevedo foi destinado a viver sem visão. Dotado de uma inteligência extremamente aguçada, ele demonstrava suas percepções bastante avançadas na infância. Com ar de curiosidade tocava em todos os objetos em sua volta. Porém, o destino desse menino não seria condenado ao analfabetismo, condição vivida pelas pessoas cegas nesse período. Surge, então, em sua vida o renomado Dr. Maximiliano Antônio Lemos, amigo da família Azevedo e homem de boas relações políticas. Conhecedor de uma escola para cegos em Paris, na França, Maximiliano tentou durante cinco anos (1839-1844), de todas as formas convencerem a família do menino sobre o quanto seria importante enviá-lo para a Europa, a fim de buscar instruções e novos conhecimentos em uma instituição especializada.

Finalmente foi matriculado no Real Instituto dos Jovens Cegos de Paris, aos dez anos de idade. Levou em sua bagagem um espírito de jovem guerreiro, predestinado a voltar para o Brasil e oferecer aos seus compatriotas cegos à rica oportunidade de ler e escrever. Assim, abriu caminhos na educação dos cegos brasileiros.

Por seis anos, permaneceu na França e estudou na mesma escola de Louis Braille, jovem cego inventor do sistema Braille e que provavelmente teria sido um de seus professores.

Retornando ao Brasil

Preparado para o convívio social e reabilitado, José Alves de Azevedo chegou da Europa no dia 14 de dezembro de 1850, com o propósito de divulgar o sistema Braille e criar uma instituição semelhante à qual havia estudado. Nos primeiros meses no Brasil procurou palestrar sobre a importância da educação dos cegos nas comunidades e salões da Corte, em casas de família, sendo o primeiro professor cego brasileiro. Alfabetizou crianças e filhos de figuras importantes da capital imperial. Sua primeira aluna foi Adélia Sigaud, filha de Francisco Xavier Sigaud, médico da corte do imperador, a qual viabilizou os sonhos do professor. Marcada uma entrevista pelo Dr. Sigaud, Azevedo demonstrou suas habilidades ao ler e escrever em Braille. Então o imperador mencionou a memorável frase: "A cegueira não é quase uma desgraça". Nesse período, inicia-se o processo de ensino através de Adélia Sigaud, que passou a ser educadora e a primeira cega a ler e escrever no Brasil.

Com o incentivo do Imperador, José Alves de Azevedo trabalhou na projeção do Instituto Imperial dos Meninos Cegos, atual Instituto Benjamin Constant (IBC), no Rio de Janeiro. O jovem idealizador, vítima da tuberculose, faleceu no dia 17 de março de 1854, aos 20 anos, seis meses antes da fundação do Instituto.

O precursor do sistema Braille expressou seu sucesso como conhecedor da cultura nacional, pesquisando a história do País nos acervos da biblioteca nacional.

Escreveu manuscritos e desempenhou seu talento também na música. Seus ideais estiveram sempre vivos na expectativa de viabilizar a educação aos cegos brasileiros.
Sua glória manteve-se à altura de grandes empreendedores, deixando sua marca na construção de um centro educacional referência nacional até hoje, o IBC.

As pessoas cegas nas regiões interioranas do Brasil ainda enfrentam desafios no que diz respeito a sua integração na sociedade. A super proteção dos pais gera insegurança nas pessoas com deficiência, que em sua maioria acabam formando uma personalidade imatura. Este quadro está ligado diretamente com a falta de incentivo por parte do governo, o qual deveria aplicar políticas de acessibilidade no currículo das escolas e no investimento em projetos sociais. Atualmente a ONCE (Organização Nacional dos Cegos Espanhóis) é uma das maiores entidades dos movimentos de associativismo do mundo. Também é criadora de inúmeros programas e fabricante de equipamentos.

Uma de suas parcerias com o governo Espanhol destina boa parte das arrecadações da loteria federal a favor das pessoas cegas.

De acordo com o Censo demográfico de 2000, o déficit educacional destas pessoas é em média um ano menor em relação aos estudantes matriculados na rede de ensino. É preciso que as lideranças das comunidades tomem ações no sentido de apoiar e fiscalizar juntamente com as entidades competentes a inclusão dos cegos. Como cidadãos, podemos encontrar milhares Josés de Azevedo, homens e mulheres que estão aguardando uma oportunidade para demonstrar seus talentos, cada um de nós pode ser a porta para a realização de brasileiros e brasileiras que ainda vivem no esquecimento.